quarta-feira, novembro 24, 2010

One red balloon
floats to the moon
just let it fly away
I only know
that I'm longing to go
back to my lazy days

[Roma Ryan/ Enya - Lazy Days]

Imagem: Google Images

segunda-feira, novembro 15, 2010

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.
[Carlos Pena Filho - "Soneto do Desmantelo Azul"]
.

Imagem: Lia Belle, Sydney [2010] - The SartoriaList

domingo, novembro 07, 2010

Cuando estoy solo, no estoy.
[Maurice Blanchot - El Espacio Literario]

Imagem: Disordering Order [2004], da ilustradora espanhola Trixis.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Ler é desejar a obra, é pretender ser a obra.
[Roland Barthes - Crítica e Verdade]

Imagem: Sombra [2010], da sul coreana Suzy Lee.

terça-feira, junho 22, 2010

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6 de novembro de 1919 - Lisboa, 2 de julho de 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Premio Camões, em 1999.

Aqui será postado um dos seus contos, para mim, de pura prosa poética ...

Vila d'Arcos

Vila d'Arcos fica ao Norte, um pouco para Leste, numa região de montanhas. É uma cidade de província e pequena com ruas empedradas em torno da catedral enorme como um navio de eternas viagens. As suas casas antigas - nobres mesmo quando pobres - são proporcionadas com justeza desde o degrau da escada até ao quadrado da janela, desde a balaustrada da varanda até à superfície da parede de granito sem reboco onde só a pedra de armas com arruelas, grifos e leões é grande demais sobre os ferros e as madeiras desconjuntadas da porta; como se no mundo em que estamos nada importasse, nem o frio do granito, nem a estreiteza sombria dos quartos, nem a pobreza monótona dos dias, mas só importasse a nobreza que mostramos à luz e que é o projecto da nossa alma.

É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.
Os carros gemem ao longo das ruas empedradas. Passam poucos homens e rápigas mulheres vestidas de preto e em Maio as roseiras florescem nos muros que o Inverno cobriu de musgo. Por trás da portada verde da pequena janela da casa de esquina uma mulher de olhos agudos, muito juntos e castanhos, vê tudo, sábia e arguta, terrivelmente atenta, como se o seu olhar lesse e amparasse o desacontecer das coisas. Há jardins imprevistos, mais subtis e complexos do que o imaginável, onde crescem altas magnólias, com grandes flores brancas de pétalas profundas e largas, macias e espessas e onde a água de prata que irrompe da boca dos golfinhos de pedra cai nos pequenos tanques oitavados. Jardins de buxo, camélias e violetas perfumados de contemplação e paixão, de esquecimento e silêncio. Jardins docemente abandonados a uma solidão dançada pelas brisas, enquanto um longo sussurro de adeus acena de folha em folha nos ramos mais altos das árvores. Jardins onde reconhecemos que a vida é um sonho do qual jamais acordamos, um sonho onde irrompem aparições prodigiosas como o lírio, a águia e o inesquecível rosto amado com paixão, mas onde tudo se transforma em esquecimento, distância, impossibilidade e detrito. Jardins onde reconhecemos que a nossa condição é não saber. É não poder jamais encontrar a unidade. E encontrar a unidade seria acordar.
1982
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Histórias da Terra e do Mar. Lisboa: Salamandra, 1984.

quarta-feira, março 04, 2009

Oficina de Criação nada Literária

Ontem, terça-feira pela manhã, começaram as aulas de Teoria da Literatura 3, que tem como foco o estudo da poesia. A professora apresentou os conceitos básicos do assunto, exemplicando - e declamando com muita veemência Camões, Pessoa, Augusto dos Anjos, etc. Em seguida, ela selecionou os poetas que teremos de ler ao longo do semestre. São vários, interessantíssimos, não só brasileiros mas também hispanoamericanos e europeus.

Por fim a professora anunciou que em algumas aulas serão feitas "oficinas de criação literária", pois, segundo ela, é muito mais fácil ensinar aquilo que se sabe fazer. Definitivamente, a idéia nããão me agradou. Já fazia anos que eu tinha desistido dessa vida poética. Ainda guardo o único poema que escrevi... um pobre soneto. Ou melhor: um texto que eu pensava, naquela época, ser um soneto, até descobrir que existia métrica e que ela estava muito além dos dois quartetos e dois tercetos...

Como ainda era cedo quando terminamos tudo o que se espera do primeiro dia de aula, a professora disse que ainda não nos poderia liberar, por conta do horário. Disse: "Por conta disso, vamos fazer uma oficina agora". Olhamos uns para os outros, e a vontade - ao menos a minha vontade - era de sair correndo porta fora. Ela nos explicou como seria o processo: falaria várias palavras soltas e, enquanto isso, deveríamos escrever o "poema". Isto aconteceu, mas para que eu escrevesse, esperei até que ela não mais falasse nada.

Segue o pseudo-poema em versos livres (modo prático para quem não sabe métrica). É importante dizer que a tentação de modificá-lo antes de expor aqui foi enormeeee. Mas não teria graça, depois de toda essa explicação anterior...

Como numa infância inventada
Aquele quintal, onde brincávamos no balanço
Sob o atento olhar da avó, na cadeira de descanso
Que, por vezes, gritava para que saíssemos da chuva.

Mas o que resta, na verdade,
É o isolamento de um edifício sem espaços
Fechado sobre si, e para os outros
Onde isolam-se pessoas, em pequenas ilhas apartamentais.

A solidão faz parte do sonho
Mas não esta, definida pelo concreto
A imagem é das praias distantes
E de um amor próximo
Quer torne aquele cenário completo.

Enfim,
Entre realidade e sonho
O desejo
Que torna tudo possível
Pela esperança em nós constante.

Horácio é que tinha razão, quando falava que devemos guardar aquilo que escrevemos por 7 anos, para reler, e aí sim, publicar. Mas ainda bem que isso foi, para mim, uma brincadeira. Se estivesse impresso em papel, não teria dúvidas nem temeria a seguinte sentença: JOGA NA FOGUEIRA!

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

José Rodrigues de Paiva nasceu em Coimbra, Portugal, em 30 de outubro de 1945 e encontra-se radicado no Recife desde abril de 1951. É Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (1969), Mestre em Letras (Teoria Literária) pela Universidade Federal de Pernambuco (1981), com defesa da dissertação "Mudança": romance-limite e Doutor em Letras (Teoria Literária) pela Universidade Federal de Pernambuco (2006), com defesa da tese Vergílio Ferreira: Para sempre, romance-síntese e última fronteira de um território ficcional, recentemente publicada pela Editora Universitária da UFPE.
Além da produção de teor acadêmico, também possui vasta produção poética. O poema escolhido para esta postagem pertence a sua mais recente publicação, As Águas do Espelho. [Editora Universitária da UFPE, 2008].

Amanhã Haveremos de Fazer Grandes Coisas

Amanhã haveremos de fazer grandes coisas...
Nada de coisas miúdas, com que se pretenda pensar e salvar o mundo,
criar uma invenção inexistente, a fórmula de remédio para doenças [incuráveis,
o elixir da longevidade... outras miudezas do gênero.
Só grandes coisas haveremos de fazer amanhã:
experimentar um vinho novo,
sentir na brisa os aromas da tarde de flores e pássaros
e a vibração interior do mistério no sopro de uma flauta.
Ler quaisquer belas páginas de um romance de Yourcenar, de [Saramago ou de Cony,
Sentarmo-nos de mãos enlaçadas, como os estóicos amantes de Reis,
à beira do açude vendo o brilho refletido na luz entre as plantas [aquáticas,
uma ave, um peixe, uma asa de vento que arrepia,
numa carícia rápida e sensual, a epiderme das águas...
Só grandes coisas,
como os privilegiados instantes de um poema
em que Borges, entre espadas e espelhos, memória sucessão e engano,
erige o tênue e eterno tempo.
São estas, se quiseres, algumas das coisas que poderemos fazer [amanhã.
Mas, como só de grandes coisas nos ocuparemos,
poderemos, ainda, ir ao campo e colher,
nas trepadeiras de uma cerca viva,
a flor amarela da alamanda que ali esteve sempre à nossa espera.
Ou, junto ao mar, lançarmos nossos olhos para além do infinito
onde moram os sonhos, ou, se preferires, subirmos aos altos montes
e ali nos ausentarmos de tudo, enquanto súbitas e densas névoas
nos envolvem, ocultado-nos de indesejáveis olhares estrangeiros.
Depois, no recolhimento da memória de cada um de nós,
haveremos de ouvir um violino que em linguagem de sonho
fale de amor, de desencontro e de saudade...
Se ainda quisesses, amanhã haveríamos de fazer grandes coisas.
Coisas como estas, ou como outras que
ao impossível sonho fosse permitido inventar.

Olinda, 13 de dezembro de 2000

sábado, janeiro 31, 2009

Ryûnosuke Akutagawa nasceu em março de 1892, em Tóquio, filho de um comerciante que o entregou à adoção para um tio, constatado o enlouquecimento da mãe. Desde cedo o escritor teve contato com traduções de Ibsen e Anatole France. Ainda na adolescência traduziu Yates e formou-se em literatura inglesa pela Universidade Imperial de Tóquio. Nesse período tornou-se
discípulo de Sôseki Matsuname, um dos grandes nomes da literatura de seu país e seu grande incentivador. Vítima de freqüentes alucinações, decidiu se suicidar em julho de 1927, aos 35 anos. Em carta escrita antes do gesto extremo, Akutagawa confessou ser a morte a única forma de encontrar a paz
[www.hedra.com.br]

Um dos motivos de maior popularização de seu trabalho no ocidente foi a adaptação em filme dos contos Rashômon e Dentro do Bosque, por Akira Kurosawa. Pelo longa Rashômon, Kurosawa ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza (1951).

Akutagawa trabalhou em seus contos temas vivenciados em diversos períodos da história do Japão, registrou também a presença do cristianismo naquele país e, por fim, a abertura ao ocidente ocorrida em fins do século XIX. Além destes, o autor possui certa produção de teor nitidamente autobiográfico, como transparece nos dois excertos do conto A Vida de um Idiota.

17 A Borboleta
Uma borboleta volteava no vento impregnado por um cheiro de ervas aquáticas. Durante apenas um ínfimo segundo, ele sentiu o roçar de suas asas sobres os lábios ressecados. Mas o pó das asas que assim fora espalhado sobre seus lábios continiou a brilhar, mesmo muitos anos depois.

42 O Riso dos Deuses
Com trinta e cinco anos de idade, ele ia caminhando pela floresta de pinheiros banhada pelo sol de primavera. Recordava as palavras que escrevera dois ou três anos antes: "Para sua infelicidade, os deuses não podem, como nós, se suicidar..."


[AKUTAGAWA, Ryûnosuke. Rashômon e outros contos. São Paulo: Hedra, 2008.]

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Rainer Maria Rilke (Praga, 4 de dezembro de 1875 - Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926) foi um dos mais importantes poetas de língua alemã do século XX. Rilke possui uma obra original, marcada pelo tratamento da forma e pelas imagens inesperadas. Celebra a união transcendental do mundo e do homem, numa espécie de “espaço cósmico interior”. Sua poesia provocava a reflexão existencialista e instigava os leitores a se defrontarem com questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX.
[www.pt.wikipedia.org]


Moro entre o dia e o sonho.
Onde cochilam crianças, quentes da correria.
Onde velhos para a noite sentam
e lareiras iluminam e aquecem o lugar.

Moro entre o dia e o sonho.
Onde tocam claros sinos vesperais
e meninas, perdidas da confusão,
descansam à boca do poço.

E uma tília é minha árvore querida;
e todos os verões que nela se calam
movem outra vez os mil galhos,
e acordam de novo entre o dia e o sonho.

domingo, junho 08, 2008

Florbela Espanca, nascida Flor Bela Lobo (Vila Viçosa, 8 de dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de dezembro de 1930), foi uma poetisa portuguesa, precursora do movimento feminista em seu país. Teve uma vida tumultuada, inquieta, transformando seus sofrimentos íntimos em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade.
[www.pt.wikipedia.org]
Quer saber mais? Leia os poemas, oras!


Minha Culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

sábado, fevereiro 23, 2008

João Armando Artur nasceu na Zambézia (Moçambique), a 28/12/1962. "Estrangeiros de Nós Próprios" é o seu terceiro livro publicado. Os anteriores são "Espelho dos dias" (1986) e "O hábito das manhãs (1990).
Armando Artur foi nomeado para o cargo de vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP) - a maior instituição privada do ensino superior de Moçambique -, em substituição de José Craveirinha, falecido em 2003. Anteriormente à nomeção, Armando Artur desempenhava as funções de secretário-geral da Associação de Escritores de Moçambique (AEMO) e de representante da Associação Africana de Escritores.

A Arte de Viver

Habito no halo
dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto

é a arte de viver...

como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida

no avesso dos versos escondo
o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade

sábado, janeiro 26, 2008

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa,13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia, sendo seus heterônimos mais conhecidos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
[www.pt.wikipedia.org]

É para a minha super mega ultra estimada amiga Nani que eu coloco aqui um poema deste mais-que-perfeito poeta!

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada,
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

sábado, dezembro 29, 2007

Vergílio António Ferreira (Melo, Gouveia, 28 de janeiro de 1916 — 1 de março de 1996) foi um escritor português. A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois periodos literários: o neo-realismo e o existencialismo. Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois períodos.
[www.pt.wikipedia.org]


Se eu soubesse a palavra,
a que subjaz aos milhões das que já disse,
a que às vezes se me anuncia num súbito silêncio interior,
a que se inscreve entre as estrelas contempladas pela noite,
a que estremece no fundo de uma angústia sem razão,
a que sinto na presença oblíqua de alguém que não está,
a que assoma ao olhar de uma criança que pela primeira vez interrogou,
a que inaudível se entreouve numa praia deserta no começo do Outono,
a que está antes de uma grande Lua nascer,
a que está atrás de uma porta entreaberta onde não há ninguém,
a que está no olhar de um cão que nos fita a compreender,
a que está numa erva de um caminho onde ninguém passa,
a que está num astro morto onde ninguém foi,
a que está numa pedra quando a olho a sós,
a que está numa cisterna quando me debruço à sua borda,
a que está numa manhã quando ainda nem as aves acordaram,
a que está entre as palavras e não foi nunca uma palavra,
a que está no último olhar de um moribundo, e a vida e o que nela foi fica a uma distância infinita,
a que está no olhar de um cego quando nos fita e resvala para nós,
- se eu soubesse a palavra,
a única, a última,
e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…


FERREIRA, Vergílio. Uma Esplanada Sobre o Mar. Bertrand Editora.


Feliz Ano Novo! =D***

domingo, dezembro 02, 2007

Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia Rocha (São Martinho de Anta- Vila Real, 12 de agosto de 1907 — Coimbra,17 de janeiro de1995), foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX.
Notável pela sua técnica narrativa no conto, pela expressividade da sua linguagem, frequentemente de cunho popular, mas de uma força clássica, fruto de um trabalho intenso da palavra, conseguiu conferir aos seus textos um ritmo vigoroso e original, a que associa uma imagística extremamente sugestiva e viva.
[www.pt.wikipedia.org]

Recomeçar

Recomeça...
Se puderes,
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade
Enquanto não alcances,
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

domingo, outubro 28, 2007

TENTAÇÃO - Clarice Lispector

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

Clarice Lispector. in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

quarta-feira, outubro 03, 2007

Enchantagem - Paulo Leminski

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito


pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

quarta-feira, julho 25, 2007




À estilosa e excêntrica amiga/ estudante/ cozinheira/ pintora/ designer, sonhadora, etc. etc. [muitas qualidades pra uma mesma pessoa! quase uma Da Vinci!] deixo um versinho de Mário Quintana, como homenagem no dia de seu natalício!

bjo naninha! =D***

"Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor."

P.S.: mas porque você escolheu essa cor? =P

domingo, julho 22, 2007

Primeiro foram comunidades. Muitas comunidades que faziam referência à música da banda. Depois, tava lá "O Teatro Mágico" para as apresentações do Festival de Circo do Recife. Infelizmente não pude ir, mas quando soube da vinda deles pra cá, busquei informações e as músicas mesmo (na comunidade oficial todas as músicas estão disponibilizadas.)
AH, aí 'cabou-se. A música deles é sutil, cheia de mensagens e muito lírica (se não for, quero que seja, e AI daquele que me venha perguntar o que é o lírico ou seu conceito).
Na árdua escolha entre "Pratododia", "Sintaxe à Vontade", "O Anjo Mais Velho" e tantas outras, decidi postar "Ana e o Mar". Não me pergunte porque, pois todas elas falam tanto ou mais que esta apresentada.
Para conhecer mais, é só acessar:
www.oteatromagico.mus.br ou www.teatromagico.blogger.com.br


Ana e o Mar
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli


Veio de manhã molhar os pés na primeira onda
Abriu os braços devagar e se entregou ao vento
O sol veio avisar que de noite ele seria a lua,
Pra poder iluminar Ana, o céu e o mar

Sol e vento, dia de casamento
Vento e sol, luz apagada no farol
Sol e chuva, casamento de viúva
Chuva e sol, casamento de espanhol

Ana aproveitava os carinhos do mundo
Os quatro elementos de tudo
Deitada diante do mar
Que apaixonado entregava as conchas mais belas
Tesouros de barcos e velas
Que o tempo não deixou voltar

Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar... mar e Ana
Histórias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar... mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar

Quando Ana entra n'água
O sorriso do mar drugada se estende pro resto do mundo
Abençoando ondas cada vez mais altas
Barcos com suas rotas e as conchas que vem avisar
Desse novo amor... Ana e o mar

domingo, julho 15, 2007

E é chegando ao final que a gente lembra do início. Essa frase não é minha, acho que vi num filme se não me engano...
Pois é, daqui a seis meses vou concluir meu LINDO curso de História, e por esses dias lembrei da época do 3º ano... pense num ano que não fiz nada que um vestibulando normal faz! só estudava História e lia Erico Veríssimo! KKKKKK Aí achei a lista dos livros que li e achei também uma foto minha nos dias do vestibular da Upe: eu com um livro de História na mão, e ao lado, um livro de Erico. Realmente, já estava determinado: História e Literatura tomariam conta da minha vida acadêmica! =D

A lista:
- Solo de Clarineta I
- Solo de Clarineta II
- Israel em Abril
- As Aventuras de Avião Vermelho
- Os Três Porquinhos Pobres
- Rosa Maria no Castelo Encantado
- O Urso-Com-Música-Na-Barriga
- A Vida do Elefante Basílio
- Outra Vez Os Três Porquinhos
- Fantoches e Outros Contos
- México
- Olhai Os Lírios do Campo
- Incidente em Antares
- Galeria Fosca
- O Prisioneiro
- Noite
- Gato Preto em Campo de Neve
- A Volta do Gato Preto

domingo, julho 01, 2007

"Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração."
João Guimarães Rosa

depois de ler isso, percebi que tenho ainda muito trabalho pela frente...